O que são perguntas poderosas?

Numa sessão de coaching há que saber dirigir a conversa que se tem com o coachee para a reflexão e para a tomada de consciência e de decisão, isto para se poder atingir um dos objectivos da comunicação Lean. Uma das formas de se obter esse tipo de resultados consiste em colocar a pergunta certa no momento certo à pessoa certa (uma espécie de just-in-time aplicado ao coaching). Estamos a falar nas Perguntas Poderosas, um conjunto de perguntas predefinidas que foram desenhadas e concebidas com uma estrutura própria que permite chegar de forma mais rápida à reflexão e causar o impacto desejado. Servem sobretudo para afastar a confusão e trazer o foco à situação presente, levando o seu interlocutor à acção e a repensar os seus passos.

Estrutura

As perguntas poderosas podem ter uma estrutura fixa e básica:

O que é que + você + verbo no futuro positivo

Esta estrutura convida o interlocutor a concentrar-se numa determinada acção, num determinado tempo e a ver-se como protagonista, responsável pela reflexão, pela atitude e, sobretudo, pela tomada de consciência. “O que é que” faz com que a pergunta seja específica e orientada ao objectivo. A palavra “Você” responsabiliza a pessoa, torna-a protagonista. O “Verbo” implica acção  e o facto de estar no futuro positivo conduz à visualização de realizações concretas num futuro próximo.

No entanto, o que faz uma pergunta poderosa não tem tanto a ver com a estrutura que segue. Entendemos que a estrutura estudada e predefinida existe somente como linha-guia que demonstra exactamente o que se pretende obter quando se coloca esse tipo de pergunta, serve de bússola de orientação para o coach. O que verdadeiramente transforma uma pergunta em pergunta poderosa tem mais a ver com:

  • discernir correctamente o contexto em que deve ser colocada;
  • ter a perícia em saber qual o momento certo;
  • descortinar o tom e o ritmo ideais para a pessoa à qual se destina;
  • calibrar a especificidade adequada para obter o foco;
  • acompanhar a pergunta da empatia necessária no momento em que é proferida.

Acreditamos que sem estes 5 pilares de suporte uma pergunta perde assim o seu potencial para se transformar numa pergunta poderosa.

Perguntas = ideias

Tipos de perguntas poderosas

As perguntas poderosas podem ser divididas pelo contexto em que são feitas e também pelo seu intuito primordial. Segundo Henry-Kimsey House, Karen Kimsey-House e Phillip Sandahl no seu livro “Co-active Coaching: Changing Business, Transforming Lives”, as perguntas poderosas podem servir então vários propósitos distintos:

 

Exemplos de perguntas poderosas

Vantagens das Perguntas Poderosas

Como já se falou anteriormente, o uso correcto das perguntas poderosas traz várias vantagens no contexto da sessão:

  • permite o estabelecimento de empatia entre o coach e o seu interlocutor;
  • traz clareza e evita e confusão no coachee;
  • define objectivos e planos a seguir;
  • leva a interconexão e reflexão;
  • incentiva à acção;
  • leva a um exercício de tomada de consciência;
  • favorece a tomada de decisão;
  • propõe a saída da zona de conforto.

Poder e responsabilidade das perguntas poderosas

Limitações das Perguntas Poderosas

A propósito do conceito de “poder”, lia-se na publicação de Agosto de 1962 do comic bookAmazing Fantasy#15: Spider-man!”, editado pela Marvel Comics, New York, autores Stan Lee e Steve Ditko: “In this world, with great power there must also come — Great Responsibility!” 

Esta frase que é o leitmotif desta série e que resume em poucas palavras o sistema de valores de um dos super-heróis mais amados de todos os tempos, tornou-se numa das mais citadas, inclusivamente pelo Supremo Tribunal dos Estados Unidos.

“É de facto um conceito que traz em si o gérmen da reflexão. Com grande poder vem a responsabilidade. Daí que faça todo o sentido trazer essa reflexão também para o contexto do coaching.”

O coach tem nas suas mãos e inegavelmente uma responsabilidade imensa: a de orientar e condicionar o seu interlocutor de forma a que lhe traga benefício e indirectamente para o âmbito requerido. Há que saber então direccionar, calibrar e usar o poder das perguntas poderosas nesse sentido: mais uma vez no serviço aos outros, tendo como farol a consciência dessa responsabilidade.

Por esse motivo, considerámos assim que a grande limitação das perguntas poderosas é mesmo essa, a falta de calibração desse poder e o desuso do mesmo sem ter em conta o seu efeito imediato e a longo prazo, nomeadamente:

  • formulando perguntas poderosas fora de qualquer contexto;
  • entrando em territórios perigosos e desconfortáveis para o coachee;
  • fazendo perguntas vazias, que não levam a lado nenhum;
  • insistindo em perguntas que não trazem valor acrescentado;
  • protagonizando aquele que deveria ser um momento de reflexão do coachee;
  • revelando através das perguntas formuladas a falta de empatia e de escuta activa.

Melhoria contínua das perguntas poderosas

A melhoria contínua no âmbito das perguntas poderosas

Inegavelmente, a única melhoria possível para esta ferramenta seria a sua utilização em conjunto com as outras ferramentas de Lean Coaching, ajudando a dar corpo e visibilidade ao trabalho que as perguntas poderosas proporcionam.

Aliás, seria também interessante poder fazer um rastreio às perguntas que produzissem maior efeito e um impacto mais visível caso fossem apresentadas por escrito, num contexto mais específico e particular.

Segundo Michael Hyatt (consultor, autor e CEO da Michael Hyatt & Company, uma empresa de desenvolvimento da liderança) no seu artigo “7 Suggestions for Asking More Powerful Questions” (fonte: michaelhyatt.com), um dos grandes truques por detrás das suas perguntas poderosas consiste em acompanhar as mesmas de factos e dados fiáveis, evitando a especulação e a mera opinião.

“People make all kinds of statements that they think are based on the facts. These should immediately cause your radar to go off. Often you will have to ask, “Do you know that to be a fact?” If so, “How do you know?” or “Can you provide me with the source for that statistic or claim?”

Certamente partilhamos da mesma opinião que o autor: é absolutamente imprescindível que o processo de coaching se faça acompanhar sempre pela busca inequívoca da verdade dos factos.

Sem ela a pergunta poderosa perde grande parte do seu poder, o de poder levar efectivamente à mudança de atitude, à direcção consciente e à decisão corroborada pelos factos.

 

Perguntas poderosas no contexto escolar

A utilização das perguntas poderosas no contexto escolar

O contexto de utilização das perguntas poderosas pode ser muito variado. Faz sentido para um coach, faz analogamente sentido para um momento de meditação e de uma forma geral entendemos que viver passa muito por nunca deixar de fazer perguntas. Devemos sempre questionar, indagar, procurar sempre saber mais e melhor.

Todavia, há um contexto que se destaca onde as perguntas poderosas poderiam fazer ainda mais sentido. E seguir um propósito que penso ser muito caro a todos. Na escola, seja na luta contra o bullying, seja na educação para o consentimento e para a assertividade nas relações interpessoais.

Nunca fez tão sentido trazer a tomada de consciência e a auto-análise para as escolas como agora. Se pensarmos bem, nunca houve uma altura em que houvesse tanta informação ao mesmo tempo e, paradoxalmente, tanto assoberbamento.

“Temos crianças e adolescentes cada vez mais confusas relativamente ao seu presente. E cada vez mais inseguras quanto ao seu futuro. E, ao mesmo tempo, cada vez mais requisitadas por tudo o que é tecnologia e distracções.”

Igualmente, fala-se cada vez mais do bullying. Há finalmente uma percepção maior relativamente a este problema crescente e que dura há gerações, mesmo sem sabermos. Mas de nada vale haver consciência da nossa parte enquanto adultos se não houver verdadeiro envolvimento e integração. Para nós, faz todo o sentido trazer as perguntas poderosas para este âmbito. Pôr os alunos a reflectir. A procurar respostas. A fazer uma auto-análise profunda dos seus hábitos, a diagnosticar atitudes.

E, sobretudo, a perceber melhor o seu papel de indivíduos pensantes, responsáveis. Com a capacidade de tomar decisões e com a consciência de causar impacto. Na prática, pode ser aconselhável utilizar estas perguntas em questionário, perante uma classe. Mas terá um impacto redobrado se forem utilizados em grupos de dois ou três, recriando o contexto da sessão e relação coach/coachee.

“Quando falamos em bullying é quase inevitável falarmos de consentimento e assertividade nas relações interpessoais.”

Com a corrente de notícias mais recentes que nos falam de assédio sexual, violação de direitos e consentimento, é inevitável que os mais novos (e até os mais velhos) se indaguem sobre o seu papel, sobre as suas atitudes. Começamos (finalmente!) a fazer as perguntas pertinentes. “O que é o consentimento?”, “quais são os limites do outro?”, “até onde vai a minha liberdade de acção?”. A pôr em causa o que era quase dogmático. E é, portanto, no nosso entender que a escola deve dar continuidade a essa indagação. O uso das perguntas poderosas pode ajudar a educar para essa assertividade essencial. A de compreender onde acabamos nós e onde começa o outro.

Na “Declaration Universelle des droits de l’homme et du citoyen”, escrita no dia 26 de Agosto de 1789, lê-se: “La liberté consiste à pouvoir faire tout ce qui ne nuit pas à autrui.”

Uma resposta poderosa a uma provável pergunta poderosa, com certeza.

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